Ainda estou
vivo. Obrigado, meu Deus, por mais um dia de vida. Esse é o meu primeiro
pensamento de todos os dias, um agradecimento involuntário que faço quando
percebo que ainda não morri. Não lembro quando eu comecei a fazer essa íntima e
silenciosa oração matutina, mas sei que foi bem depois da melanina ter
abandonado completamente todos os pêlos do meu corpo. Também não lembro quando
adquiri fé em Deus, eu, que sempre defendi com paixão e orgulho minha condição
de cético, de uma hora para outra me transformei em um espécime quase
esquizofrênico que tenta defender a velha ideologia agnóstica, porém deixa
escapar no âmago do coração um maldito “graças a deus”. Talvez a melanina tenha
levado velhos preconceitos e deixado novos medos, não sei. Talvez eu tenha
perdido as forças quando meus cabelos resolveram me abandonar, o maldito tempo,
a Dalila de todos os Sansões que, como eu, teimam em vão lutar contra o inimigo
invencível.
E o que é mais
estranho na vida é saber que ela, embora seja muito boa, compartilha com as
histórias chatas algo presente na maioria delas: o final previsível. Desde
criancinhas aprendemos que a única coisa certa na vida é a morte. Quando jovem,
eu nunca me importei com isso, porque, afinal, os jovens não costumam acreditar
que um dia eles podem morrer. Em geral, se a vida não proporcionar ao jovem
algum triste aprendizado por meio de, por exemplo, alguma doença grave, ele é
capaz de apostar que a única forma dele morrer é tendo a cabeça cortada por uma
espada de um guerreiro, que grita “só pode haver um” durante a decapitação. E
ainda assim, mesmo após imaginar sua cabeça rolando, o jovem,
inconscientemente, é capaz de acreditar na hipótese de ser possível fazer um
“continue”, apertando o “start”.
Por outro lado,
depois que a fofa e ingrata Dalila levou minhas forças, ela me fez enxergar
algo muito desagradável: aquele anjo do mal que se veste com sobretudo e capuz
preto e carrega a foice está fungando em meu cangote. Não, não gosto dessa
assombração.
É triste, no
entanto, saber que ele está chegando, o anjo, que vem para todos, desde que Eva
comeu a maçã. – perceberam a esquizofrenia? Já estou falando sobre teoria
criacionista... Não é um bom sinal, perdoem-me, mas a idade tem efeitos
catastróficos na lucidez. – Bom, na verdade, ele vem para todos desde que o
homo sapiens sapiens, ainda não era sapiens, ou melhor, vem para todos os
organismos vivos desde que a vida de repente brotou na Terra como num passe de
mágicas – ou obra de Deus? - Deus, Deus, Deus... Sempre Deus depois da maldita
Dalila levar meus cabelos e minhas forças...
Só que a idade
não traz apenas medos, incertezas, esquizofrenias e escleroses. Há também o
lado bom de envelhecer e o que há de melhor é poder olhar pra trás e lembrar de
como foi bom ter vivido esta vida e ainda poder olhar pra frente e dizer: “mais
um pouquinho de uh”. Para o jovem, o passado não é muito importante e o futuro
traz sonhos e incertezas. Pra mim o passado é um filme vencedor de todos os
prêmios e o futuro não interessa. Graças ao maldito, inconveniente, lazarento,
desonesto e infeliz anjo de capa preta e foice, eu vivo o presente aproveitando
a plenitude de cada instante, cada segundo, e penso ser capaz de contar e ficar
grato (a Deus) por todos os movimentos involuntários do músculo da vida que
ainda pulsa e que continuará pulsando até o maldito, lazarento, blá, blá, blá,
resolver me levar com ele para a terra do nunca. Esse é o lado chato desse
filme vencedor de todos os prêmios.
E por falar em
terra do nunca, todo velho - não, velho não, idoso. Melhor utilizar a palavra
eufemisticamente correta - sonha com a terra do nunca, assim como as crianças.
Seria um fim muito mais agradável viver a eternidade num lugar onde se pode
voar, nunca se envelhece, vive-se cercado de amigos e ainda é possível
participar de emocionantes aventuras lutando contra o malvado capitão gancho...
Ah, terra do nunca. Quando se é velho – idoso, não posso esquecer – é comum
imergir em mundos de fantasias.
O que melhor
simboliza a vida de um indivíduo devidamente enrugado é a analogia a uma taça
cheia. Não. Não gosto de comparações com o maracujá. É incontestável o fato de
que no final todas as vidas podem ser representadas por uma taça cheia e o que
irá diferenciar uma das outras é o conteúdo que foi usado para enchê-las. A
minha eu enchi de muitas coisas boas e poucas coisas ruins. Considero que a
minha taça seja como um bom vinho levemente amargo. Sejamos sinceros, vinho
doce e suave é uma porcaria. A vida seria também ruim se fosse feita só de
doçuras. As pedras no caminho me ensinaram muito e agora que bebo desta taça da
vida percebo que sem as amarguras, as memórias não teriam o mesmo valor nem o
mesmo sabor. Seria um vinho insosso, o sabor de uma vida sem graça.
Admito, depois
de velho comecei a gostar de autoajuda, então vai uma pra vocês: encham suas
taças com qualquer coisa, mas não deixem de enchê-las por medo ou preguiça. É
importante lembrar de tomar cuidado para não deixar a taça transbordar, pois
deve-se sempre deixar um espaço para novas experiências. Não se preocupem se a
taça é de ouro ou de barro, preocupem-se apenas com o sabor do vinho, nem muito
doce, nem muito amargo.
Eu queria poder
ter tempo para escrever aqui pra vocês a história de toda minha vida, mas a
Dalila não deixa, ela urge! E eu preciso continuar correndo do capa preta e o
recado que eu quero deixar é o seguinte: subam no trem das onze, não deixem
para amanhã de manhã. Mirem-se hoje mesmo no exemplo deste senhor que vos fala:
Carpe diem, et cum Deo.
I’ll be back
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