quarta-feira, 31 de julho de 2013

Carpe diem, et cum Deo

Ainda estou vivo. Obrigado, meu Deus, por mais um dia de vida. Esse é o meu primeiro pensamento de todos os dias, um agradecimento involuntário que faço quando percebo que ainda não morri. Não lembro quando eu comecei a fazer essa íntima e silenciosa oração matutina, mas sei que foi bem depois da melanina ter abandonado completamente todos os pêlos do meu corpo. Também não lembro quando adquiri fé em Deus, eu, que sempre defendi com paixão e orgulho minha condição de cético, de uma hora para outra me transformei em um espécime quase esquizofrênico que tenta defender a velha ideologia agnóstica, porém deixa escapar no âmago do coração um maldito “graças a deus”. Talvez a melanina tenha levado velhos preconceitos e deixado novos medos, não sei. Talvez eu tenha perdido as forças quando meus cabelos resolveram me abandonar, o maldito tempo, a Dalila de todos os Sansões que, como eu, teimam em vão lutar contra o inimigo invencível.          
E o que é mais estranho na vida é saber que ela, embora seja muito boa, compartilha com as histórias chatas algo presente na maioria delas: o final previsível. Desde criancinhas aprendemos que a única coisa certa na vida é a morte. Quando jovem, eu nunca me importei com isso, porque, afinal, os jovens não costumam acreditar que um dia eles podem morrer. Em geral, se a vida não proporcionar ao jovem algum triste aprendizado por meio de, por exemplo, alguma doença grave, ele é capaz de apostar que a única forma dele morrer é tendo a cabeça cortada por uma espada de um guerreiro, que grita “só pode haver um” durante a decapitação. E ainda assim, mesmo após imaginar sua cabeça rolando, o jovem, inconscientemente, é capaz de acreditar na hipótese de ser possível fazer um “continue”, apertando o “start”.
Por outro lado, depois que a fofa e ingrata Dalila levou minhas forças, ela me fez enxergar algo muito desagradável: aquele anjo do mal que se veste com sobretudo e capuz preto e carrega a foice está fungando em meu cangote. Não, não gosto dessa assombração.
É triste, no entanto, saber que ele está chegando, o anjo, que vem para todos, desde que Eva comeu a maçã. – perceberam a esquizofrenia? Já estou falando sobre teoria criacionista... Não é um bom sinal, perdoem-me, mas a idade tem efeitos catastróficos na lucidez. – Bom, na verdade, ele vem para todos desde que o homo sapiens sapiens, ainda não era sapiens, ou melhor, vem para todos os organismos vivos desde que a vida de repente brotou na Terra como num passe de mágicas – ou obra de Deus? - Deus, Deus, Deus... Sempre Deus depois da maldita Dalila levar meus cabelos e minhas forças...
Só que a idade não traz apenas medos, incertezas, esquizofrenias e escleroses. Há também o lado bom de envelhecer e o que há de melhor é poder olhar pra trás e lembrar de como foi bom ter vivido esta vida e ainda poder olhar pra frente e dizer: “mais um pouquinho de uh”. Para o jovem, o passado não é muito importante e o futuro traz sonhos e incertezas. Pra mim o passado é um filme vencedor de todos os prêmios e o futuro não interessa. Graças ao maldito, inconveniente, lazarento, desonesto e infeliz anjo de capa preta e foice, eu vivo o presente aproveitando a plenitude de cada instante, cada segundo, e penso ser capaz de contar e ficar grato (a Deus) por todos os movimentos involuntários do músculo da vida que ainda pulsa e que continuará pulsando até o maldito, lazarento, blá, blá, blá, resolver me levar com ele para a terra do nunca. Esse é o lado chato desse filme vencedor de todos os prêmios.
E por falar em terra do nunca, todo velho - não, velho não, idoso. Melhor utilizar a palavra eufemisticamente correta - sonha com a terra do nunca, assim como as crianças. Seria um fim muito mais agradável viver a eternidade num lugar onde se pode voar, nunca se envelhece, vive-se cercado de amigos e ainda é possível participar de emocionantes aventuras lutando contra o malvado capitão gancho... Ah, terra do nunca. Quando se é velho – idoso, não posso esquecer – é comum imergir em mundos de fantasias.
O que melhor simboliza a vida de um indivíduo devidamente enrugado é a analogia a uma taça cheia. Não. Não gosto de comparações com o maracujá. É incontestável o fato de que no final todas as vidas podem ser representadas por uma taça cheia e o que irá diferenciar uma das outras é o conteúdo que foi usado para enchê-las. A minha eu enchi de muitas coisas boas e poucas coisas ruins. Considero que a minha taça seja como um bom vinho levemente amargo. Sejamos sinceros, vinho doce e suave é uma porcaria. A vida seria também ruim se fosse feita só de doçuras. As pedras no caminho me ensinaram muito e agora que bebo desta taça da vida percebo que sem as amarguras, as memórias não teriam o mesmo valor nem o mesmo sabor. Seria um vinho insosso, o sabor de uma vida sem graça.
Admito, depois de velho comecei a gostar de autoajuda, então vai uma pra vocês: encham suas taças com qualquer coisa, mas não deixem de enchê-las por medo ou preguiça. É importante lembrar de tomar cuidado para não deixar a taça transbordar, pois deve-se sempre deixar um espaço para novas experiências. Não se preocupem se a taça é de ouro ou de barro, preocupem-se apenas com o sabor do vinho, nem muito doce, nem muito amargo.
Eu queria poder ter tempo para escrever aqui pra vocês a história de toda minha vida, mas a Dalila não deixa, ela urge! E eu preciso continuar correndo do capa preta e o recado que eu quero deixar é o seguinte: subam no trem das onze, não deixem para amanhã de manhã. Mirem-se hoje mesmo no exemplo deste senhor que vos fala: Carpe diem, et cum Deo.


I’ll be back

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