- Não pise nesse chão porque ele
é do Seu Floriano.
- Não entre nessa casa porque ela
é do Seu Floriano.
- Não ande nessa rua porque ela é
do Seu Floriano.
E a piada que eu ouvi na minha
infância continuava infinitamente, onde uma voz do além (do narrador) ficava
buzinando no ouvido do protagonista, dizendo que tudo no universo era do seu
Floriano.
Havia outra piada do mesmo gênero
onde o mundo era verde, tudo era verde, e no final, o protagonista encontrava
uma pessoa azul e lhe perguntava:
- Hei, você pode me dizer por que
o mundo é verde?
E a resposta era irritante, pois
a intenção era essa.
- Não sei, não sou deste mundo.
Bom, mas não estou chernichando
aqui para escrever sobre o mundo verde. Eu poderia contar outras do mesmo tipo, daquelas que só servem pra irritar, por exemplo, "uma caixinha de blog blog", "queremos o tchu, o tchu é legal" e a do Boi Verde. Pois é, a do Boi Verde. Vou contar ela aqui pra vocês...
Era uma vez um circo, cuja principal atração era o Boi Verde... Então.
Ah, me esqueci.
Então voltemos para o Seu Floriano. Vamos lá.
Era uma vez um circo, cuja principal atração era o Boi Verde... Então.
Ah, me esqueci.
Então voltemos para o Seu Floriano. Vamos lá.
Hoje vou trabalhar usando
Bermuda.
- Seu Floriano não permite
trabalhar de bermuda.
- Mas a Leontina sempre vai de
mini-saia...
- Não interessa!
- Está calor, pelo menos posso ir
de camiseta?
- Não!
- De chinelos?
- Não!
- Mas a Leontina usa blusinhas e
sandálias rasteiras sempre que...
- Não! Eu já falei, o Seu
Floriano não permite.
Coloco a calça jeans surrada,
camisa de botão com manga comprida e vou trabalhar, derretendo como um
Chicabon. Estaciono meu carro.
- Seu Floriano informa que é
proibido estacionar aí.
Mudo de vaga. Acho um
estacionamento por apenas 40 reais a diária. Chego ao trabalho e vou ler o
e-mail particular
- Seu Floriano proíbe que os
empregados leiam seus e-mails particulares.
Fecho o firefox. Estou
estressado, desço pra fumar.
- Seu Floriano proíbe cigarros
nessa área.
Apago o cigarro, encontro um
camelô e compro um chocolate.
- Seu Floriano informa que
chocolate engorda.
Cuspo fora e vou almoçar. No
restaurante, seleciono uma comida que eu gosto.
- Seu Floriano diz pra você não
escolher o que gosta, mas o que é saudável.
Deixo o prato de lado, pego
outro, encho de coisas verdes que eu detesto, mas que fazem bem.
Volto ao trabalho. Não estou a
fim de trabalhar. Afinal, sou músico. Não nasci para serviços de escritório.
- Seu Floriano informa que você
precisa sustentar sua família.
Esqueço essa ideia maluca de ser
músico e mergulho nas planilhas. Chego em casa, estou cansado, não quero ir à
academia.
- Seu Floriano lembra que você
vai engordar e morrer de infarto.
Troco de roupa, rumo à malhação.
Volto pra casa e quero dormir.
- Seu Floriano informa que você
precisa brincar de Indiana Jones com seu filho. Você pode optar em jogar Mario
Bross.
Acabo sendo morto pelo Browser do
último castelo do mundo 8 e meu filho já dormia há 3 horas. Vou para cama,
quero dormir também.
- Seu Floriano te lembra que
precisa conversar com sua mulher. Discutir alguma coisa da relação que não vai
bem.
Converso bastante com o amor da
minha vida, meu tudo. Depois digo que vou melhorar, as coisas vão mudar e que
vou fazer dela a mulher mais feliz do mundo. Ela chora de emoção e finge
acreditar.
Acordo para mais um dia na minha
vida. É sábado. Vou à praia e levo meus cachorros.
- Seu Floriano proíbe cachorros
nessa praia.
Amarro os bichos numa árvore no
calçadão pra pelo menos um mergulho.
- Seu Floriano informa que você
pode morrer afogado. Muita correnteza.
Saio da água depois de só molhar
a canela. Sento na areia. Um pouquinho de sol sempre faz bem.
- Seu Floriano diz que se você
não usar protetor fator 60, terá câncer de pele em no máximo 40 anos.
Saio da praia. Já deu. Tudo na
praia é muito bom, exceto a areia, a água salgada e o sol intenso.
Volto pra casa e fico preso num
engarrafamento. Uma manifestação. Estaciono em qualquer lugar.
- Mas que porcaria de
manifestação, cerceando o meu direito de ir e vir. – Eu digo.
- Seu Floriano diz que todos têm
o direito de se manifestar.
Adiro à causa. Levanto uma
bandeira qualquer e já estou misturado aos manifestantes por um país melhor.
- Seu Floriano informa que você
receberá bombas de gás e spray de pimenta. Já não é mais hora de se manifestar.
Caio fora. Não gosto de
violência. Pego o carro de volta e sou assaltado. Estou armado e mato o
bandido.
- Seu Floriano irá te levar
preso. É proibido fazer justiça com as próprias mãos.
Na cadeia, penso que não agüento
mais a vida. Preciso sumir. Um outro país, talvez...
Depois de ser julgado e
inocentado, afinal, foi legítima defesa, decido sair do país.
- Seu Floriano não permite sair
do país sem passaporte.
Tiro o passaporte e pego o avião.
Rumo à nova vida. Dentro do avião olho pro lado. Sabe quem está sentado ao meu
lado?
Você respondeu “Seu Floriano”?
Resposta errada.
Na verdade, ao meu lado estava o...
Boi Verde!
Na verdade, ao meu lado estava o...
Boi Verde!
A piada acabava assim, mas minha
presente abobrinha, não.
Quero comer alguma coisa. Peço o serviço de bordo.
Quero comer alguma coisa. Peço o serviço de bordo.
- Seu Floriano informa que se
você está voando de gol, precisa escolher algo no cardápio e pagar pelo o que
quiser consumir.
Perco a fome. Depois de 8 horas,
chego ao meu destino. Em solo firme, quero sair do aeroporto o mais rápido
possível.
- Seu Floriano não permite que
você saia antes de passar pelo serviço de imigração.
E lá vou eu. Tudo certo. Sou
apenas um turista. Decido então me tornar um turista espacial. Esse mundo não é
pra mim. Após vender até minha alma pra conseguir dinheiro, entro num ônibus
espacial que viajará sem destino pelo sistema solar.
Dentro da Apollo L, encontro um
homem verde, provavelmente de marte. Finalmente alguém que não me perturbaria
com um papo “Floriano”, no máximo, um papo marciano.
- De férias pelo espaço? –
Pergunto pra puxar assunto.
- Não. A trabalho. Estou vendendo
excelentes empreendimentos imobiliários em marte. Quer conhecer?
- Sim. Por que não?
Pego um panfleto. “Quatrocentos quilômetros privativos de
liberdade, para fumar, andar pelado, estacionar o carro, se manifestar e ficar
tocando violão. Um espaço incrível para você e sua família”.
- Eu quero. Quanto custa?
- Apenas 1 Real.
- Ahn?
- Sim. Em marte não existe
dinheiro, então, qualquer dinheiro lá é muita coisa.
- Então toma 1 Real. Agora me
passa a escritura.
Aperto a mão verde do marciano e
pego a escritura. Leio tudo com muita atenção. A última linha me levou ao
suicídio, em pleno espaço sideral.
“Um oferecimento de Seu Floriano
empreendimentos imobiliários”
Moral da história?
Não sei. Não sou desse mundo.
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