quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Seu Floriano



- Não pise nesse chão porque ele é do Seu Floriano.

- Não entre nessa casa porque ela é do Seu Floriano.

- Não ande nessa rua porque ela é do Seu Floriano.

E a piada que eu ouvi na minha infância continuava infinitamente, onde uma voz do além (do narrador) ficava buzinando no ouvido do protagonista, dizendo que tudo no universo era do seu Floriano.

Havia outra piada do mesmo gênero onde o mundo era verde, tudo era verde, e no final, o protagonista encontrava uma pessoa azul e lhe perguntava:

- Hei, você pode me dizer por que o mundo é verde?

E a resposta era irritante, pois a intenção era essa.

- Não sei, não sou deste mundo.

Bom, mas não estou chernichando aqui para escrever sobre o mundo verde. Eu poderia contar outras do mesmo tipo, daquelas que só servem pra irritar, por exemplo, "uma caixinha de blog blog", "queremos o tchu, o tchu é legal" e a do Boi Verde. Pois é, a do Boi Verde. Vou contar ela aqui pra vocês...

Era uma  vez um circo, cuja principal atração era o Boi Verde... Então. 

Ah, me esqueci.

Então voltemos para o Seu Floriano. Vamos lá.

Hoje vou trabalhar usando Bermuda.

- Seu Floriano não permite trabalhar de bermuda.

- Mas a Leontina sempre vai de mini-saia...

- Não interessa!

- Está calor, pelo menos posso ir de camiseta?

- Não!

- De chinelos?

- Não!

- Mas a Leontina usa blusinhas e sandálias rasteiras sempre que...

- Não! Eu já falei, o Seu Floriano não permite.

Coloco a calça jeans surrada, camisa de botão com manga comprida e vou trabalhar, derretendo como um Chicabon. Estaciono meu carro.
       
- Seu Floriano informa que é proibido estacionar aí.

Mudo de vaga. Acho um estacionamento por apenas 40 reais a diária. Chego ao trabalho e vou ler o e-mail particular

- Seu Floriano proíbe que os empregados leiam seus e-mails particulares.

Fecho o firefox. Estou estressado, desço pra fumar.

- Seu Floriano proíbe cigarros nessa área.

Apago o cigarro, encontro um camelô e compro um chocolate.

- Seu Floriano informa que chocolate engorda.

Cuspo fora e vou almoçar. No restaurante, seleciono uma comida que eu gosto.

- Seu Floriano diz pra você não escolher o que gosta, mas o que é saudável.

Deixo o prato de lado, pego outro, encho de coisas verdes que eu detesto, mas que fazem bem.

Volto ao trabalho. Não estou a fim de trabalhar. Afinal, sou músico. Não nasci para serviços de escritório.

- Seu Floriano informa que você precisa sustentar sua família.

Esqueço essa ideia maluca de ser músico e mergulho nas planilhas. Chego em casa, estou cansado, não quero ir à academia.

- Seu Floriano lembra que você vai engordar e morrer de infarto.

Troco de roupa, rumo à malhação. Volto pra casa e quero dormir.

- Seu Floriano informa que você precisa brincar de Indiana Jones com seu filho. Você pode optar em jogar Mario Bross.

Acabo sendo morto pelo Browser do último castelo do mundo 8 e meu filho já dormia há 3 horas. Vou para cama, quero dormir também.

- Seu Floriano te lembra que precisa conversar com sua mulher. Discutir alguma coisa da relação que não vai bem.

Converso bastante com o amor da minha vida, meu tudo. Depois digo que vou melhorar, as coisas vão mudar e que vou fazer dela a mulher mais feliz do mundo. Ela chora de emoção e finge acreditar.

Acordo para mais um dia na minha vida. É sábado. Vou à praia e levo meus cachorros.

- Seu Floriano proíbe cachorros nessa praia.

Amarro os bichos numa árvore no calçadão pra pelo menos um mergulho.

- Seu Floriano informa que você pode morrer afogado. Muita correnteza.

Saio da água depois de só molhar a canela. Sento na areia. Um pouquinho de sol sempre faz bem.

- Seu Floriano diz que se você não usar protetor fator 60, terá câncer de pele em no máximo 40 anos.

Saio da praia. Já deu. Tudo na praia é muito bom, exceto a areia, a água salgada e o sol intenso.

Volto pra casa e fico preso num engarrafamento. Uma manifestação. Estaciono em qualquer lugar.

- Mas que porcaria de manifestação, cerceando o meu direito de ir e vir. – Eu digo.

- Seu Floriano diz que todos têm o direito de se manifestar.

Adiro à causa. Levanto uma bandeira qualquer e já estou misturado aos manifestantes por um país melhor.

- Seu Floriano informa que você receberá bombas de gás e spray de pimenta. Já não é mais hora de se manifestar.

Caio fora. Não gosto de violência. Pego o carro de volta e sou assaltado. Estou armado e mato o bandido.

- Seu Floriano irá te levar preso. É proibido fazer justiça com as próprias mãos.

Na cadeia, penso que não agüento mais a vida. Preciso sumir. Um outro país, talvez...

Depois de ser julgado e inocentado, afinal, foi legítima defesa, decido sair do país.

- Seu Floriano não permite sair do país sem passaporte.

Tiro o passaporte e pego o avião. Rumo à nova vida. Dentro do avião olho pro lado. Sabe quem está sentado ao meu lado?

Você respondeu “Seu Floriano”? Resposta errada.

Na verdade, ao meu lado estava o...

Boi Verde!

A piada acabava assim, mas minha presente abobrinha, não.

Quero comer alguma coisa. Peço o serviço de bordo.

- Seu Floriano informa que se você está voando de gol, precisa escolher algo no cardápio e pagar pelo o que quiser consumir.

Perco a fome. Depois de 8 horas, chego ao meu destino. Em solo firme, quero sair do aeroporto o mais rápido possível.

- Seu Floriano não permite que você saia antes de passar pelo serviço de imigração.

E lá vou eu. Tudo certo. Sou apenas um turista. Decido então me tornar um turista espacial. Esse mundo não é pra mim. Após vender até minha alma pra conseguir dinheiro, entro num ônibus espacial que viajará sem destino pelo sistema solar.

Dentro da Apollo L, encontro um homem verde, provavelmente de marte. Finalmente alguém que não me perturbaria com um papo “Floriano”, no máximo, um papo marciano.

- De férias pelo espaço? – Pergunto pra puxar assunto.

- Não. A trabalho. Estou vendendo excelentes empreendimentos imobiliários em marte. Quer conhecer?

- Sim. Por que não?

Pego um panfleto. “Quatrocentos quilômetros privativos de liberdade, para fumar, andar pelado, estacionar o carro, se manifestar e ficar tocando violão. Um espaço incrível para você e sua família”.

- Eu quero. Quanto custa?

- Apenas 1 Real.

- Ahn?

- Sim. Em marte não existe dinheiro, então, qualquer dinheiro lá é muita coisa.

- Então toma 1 Real. Agora me passa a escritura.

Aperto a mão verde do marciano e pego a escritura. Leio tudo com muita atenção. A última linha me levou ao suicídio, em pleno espaço sideral.

“Um oferecimento de Seu Floriano empreendimentos imobiliários”

Moral da história?

Não sei. Não sou desse mundo.

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