segunda-feira, 22 de julho de 2013

V de Victoria


A primeira coisa que ele viu quando abriu os olhos foi o fogo. Depois viu pessoas correndo, muita fumaça, policiais lançando bombas de gás, gritos e desespero. Não demorou muito para reparar que em suas mãos, braços e pernas havia muito sangue. Sentia também o gosto de sangue. Levou as mãos ao rosto e o sentiu molhado e pegajoso. Levantou-se e avistou sua imagem refletida no que restava do vidro estilhaçado de um ponto de ônibus. Neste instante se deu conta de que não era capaz de se reconhecer. Por mais que se esforçasse, não se lembrava de quem era. Ele nem mesmo se lembrava de seu nome e isso o deixou bastante perplexo e ensimesmado.
Gritos, correria e confusão o despertaram do estado de choque em que se encontrava. Ouviu uma voz masculina, carregada de ódio, gritar de algum lugar.
– Desgraçado!
Não teve tempo de se virar para ver quem era, porque, de repente, foi atirado ao chão por pessoas em fuga e perdeu os sentidos quando foi pisoteado.
Acordou, não sabia quanto tempo depois, numa cama confortável e aconchegante, num quarto pequeno que cheirava a incenso, iluminado por uma fraca luz de um abajur colocado num criado–mudo. Ao lado da cama havia uma poltrona e ele se assustou quando viu que nela estava sentada uma linda jovem.
– Não se assuste. Está tudo bem agora. – Disse ela.
– Onde estou? Quem é você? – Teve vontade de perguntar também se ela sabia quem ele era, mas conseguiu segurar a língua. Melhor deixar essa pergunta pra depois, pensou.
– Está na minha casa. Meu nome é Victoria, e o seu?
– João. – Inventou.
– Então descanse, João. Você perdeu muito sangue e se eu não tivesse tirado você daquela manifestação, provavelmente você seria pisoteado até a morte.
– Nem sei como te agradecer.
– Não precisa me agradecer. O que eu faço é por amor.
– Amor?
– Sim, amor. Sabe o que significa? É aquela coisa que as pessoas costumam sentir pela família e pelos amigos e os casais costumam sentir um pelo outro. Lembra? – Ela sorriu.
Ele Sorriu de volta e fez sinal afirmativo com a cabeça. Teve vontade de perguntar se ela estava sentindo algum tipo de amor por ele, mas não teve coragem.
– Diga-me uma coisa. – Continuou Victoria. – Eu queria saber, apenas por curiosidade, por que você estava ali naquela manifestação?
– Bom... Não sei bem. Acho que fiz porque sou contra a corrupção e contra todo esse sistema que está aí. – Respondeu qualquer coisa porque simplesmente ele não fazia ideia do que havia o levado a estar lá naquela confusão.
– Pois eu também sou contra a corrupção, assim como sou contra a malária, contra o câncer, contra a AIDS... Enfim, deixa pra lá. Não quero discutir política. O importante agora é você ficar bem.
Como ele não estava disposto a discutir nada, muito menos política, o assunto se encerrou. Depois tentou se levantar e não conseguiu. As pernas doíam muito e ele sentia fortes tonteiras. Victoria cuidou dele e aos poucos ele foi melhorando. Passaram-se vários dias na rotina no quarto com aquela linda menina fazendo de tudo para lhe agradar. As conversas passaram a ser sobre temas corriqueiros e agradáveis. Não demorou muito para que descobrisse que estava apaixonado por aquela bela jovem de olhos verdes, cabelos loiros e corpo esbelto.
Ele continuava intrigado e se sentia angustiado por não se lembrar de quem era. Às vezes se olhava em um espelho, que ficava guardado numa das gavetas do criado-mudo, imaginando que talvez isso pudesse ajudar a se lembrar de si, mas era inútil. Era como se ele olhasse para um estranho. Além disso, outra coisa que o angustiava era a possibilidade de que o seu sumiço estivesse fazendo sua família sofrer. Será que eu tenho família? Este incômodo pensamento era corriqueiro.
Entretanto, quando Victoria estava ao seu lado, nada além de sua beleza e do brilho verde de seus olhos lhe importavam. Ela parecia perceber isso, pois ele não sabia disfarçar os sentimentos. A jovem parecia inclusive estar percebendo a falta memória, pois passou a o perguntar muito mais sobre o seu passado, perguntava se ele queria ligar para alguém da família, se havia alguém para lhe buscar. Victoria não pareceu surpresa quando ele respondeu que não havia ninguém para quem quisesse ligar. Esquivava-se das perguntas o melhor que podia e quando uma resposta era inevitável, inventava algo. A situação foi piorando e ele, que naquela altura amava Victoria mais que qualquer coisa no mundo, abriu o jogo com ela e contou a verdade sobre a amnésia.
– Eu já desconfiava, afinal, você já chamou a sua mãe de três nomes diferentes e seu nome não poderia ser somente João, sem sobrenome. Essa foi a pior mentira que me contou.
Ele riu. Riram juntos. Aliás, ele sorria a cada instante ao lado dela. O fato de não existir mais segredos entre os dois, o deixou aliviado. Esconder algo da Victoria era como trair a mulher amada, pensava ele.
– Mas não se preocupe. Vou te ajudar a se lembrar do teu passado. Venha comigo.
Depois de muito tempo sob os cuidados de Victoria, ele já conseguia se levantar e pôde segui-la até a sala. Ela se sentou e indicou um lugar no sofá para ele. Pegou um porta-retratos que estava sobre a mesa de centro e lhe mostrou a foto.
– Essa é minha mãe. Morreu muito jovem. – Victoria exibia uma expressão de dor e não tentou conter as lágrimas que se precipitaram e foram pousar em seus lábios.
Levantou-se, abriu uma gaveta da estante da sala de onde retirou alguns panos e os jogou para ele. Havia uma máscara rasgada e um pouco queimada e uma bandeira com o símbolo que ele não pôde reconhecer.
– Acho que isso era seu. Talvez te ajude a se lembrar de alguma coisa.
– Infelizmente isso aqui não ajuda em nada.
– Olhe para a foto da minha mãe. Ela era jovem, estava num ônibus voltando para a casa, quando um desgraçado jogou Coquetel Molotov. Os passageiros conseguiram fugir, mas minha mãe que era cadeirante, não.
Ficou emocionado, chorou com ela e falou:
– Sinto muito.
Ela se afastou, se aproximou da porta que aparentemente levava para o exterior da casa, a abriu e disse:
– Não, João, o ninguém. Sou eu quem sente muito. O desgraçado que queimou minha mãe está agora sentado no sofá da casa que era dela e agora vai queimar como ela queimou.

Victoria acendeu um isqueiro e o jogou num chão previamente preparado para queimar, saiu de casa e ele pôde ouvir o som do ferrolho quando a porta foi trancada. O fogo se alastrou rapidamente pela residência e finalmente ele havia descoberto quem ele era: um homem morto.

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