A primeira coisa
que ele viu quando abriu os olhos foi o fogo. Depois viu pessoas correndo,
muita fumaça, policiais lançando bombas de gás, gritos e desespero. Não demorou
muito para reparar que em suas mãos, braços e pernas havia muito sangue. Sentia
também o gosto de sangue. Levou as mãos ao rosto e o sentiu molhado e pegajoso.
Levantou-se e avistou sua imagem refletida no que restava do vidro estilhaçado
de um ponto de ônibus. Neste instante se deu conta de que não era capaz de se
reconhecer. Por mais que se esforçasse, não se lembrava de quem era. Ele nem
mesmo se lembrava de seu nome e isso o deixou bastante perplexo e ensimesmado.
Gritos, correria e
confusão o despertaram do estado de choque em que se encontrava. Ouviu uma voz
masculina, carregada de ódio, gritar de algum lugar.
– Desgraçado!
Não teve tempo de se
virar para ver quem era, porque, de repente, foi atirado ao chão por pessoas em
fuga e perdeu os sentidos quando foi pisoteado.
Acordou, não sabia
quanto tempo depois, numa cama confortável e aconchegante, num quarto pequeno
que cheirava a incenso, iluminado por uma fraca luz de um abajur colocado num
criado–mudo. Ao lado da cama havia uma poltrona e ele se assustou quando viu
que nela estava sentada uma linda jovem.
– Não se assuste.
Está tudo bem agora. – Disse ela.
– Onde estou? Quem
é você? – Teve vontade de perguntar também se ela sabia quem ele era, mas
conseguiu segurar a língua. Melhor deixar essa pergunta pra depois, pensou.
– Está na minha
casa. Meu nome é Victoria, e o seu?
– João. – Inventou.
– Então descanse,
João. Você perdeu muito sangue e se eu não tivesse tirado você daquela
manifestação, provavelmente você seria pisoteado até a morte.
– Nem sei como te
agradecer.
– Não precisa me
agradecer. O que eu faço é por amor.
– Amor?
– Sim, amor. Sabe o
que significa? É aquela coisa que as pessoas costumam sentir pela família e
pelos amigos e os casais costumam sentir um pelo outro. Lembra? – Ela sorriu.
Ele Sorriu de volta
e fez sinal afirmativo com a cabeça. Teve vontade de perguntar se ela estava sentindo algum tipo de amor por ele, mas
não teve coragem.
– Diga-me uma
coisa. – Continuou Victoria. – Eu queria saber, apenas por curiosidade, por que
você estava ali naquela manifestação?
– Bom... Não sei
bem. Acho que fiz porque sou contra a corrupção e contra todo esse sistema que
está aí. – Respondeu qualquer coisa porque simplesmente ele não fazia ideia do
que havia o levado a estar lá naquela confusão.
– Pois eu também
sou contra a corrupção, assim como sou contra a malária, contra o câncer,
contra a AIDS... Enfim, deixa pra lá. Não quero discutir política. O importante
agora é você ficar bem.
Como ele não estava
disposto a discutir nada, muito menos política, o assunto se encerrou. Depois
tentou se levantar e não conseguiu. As pernas doíam muito e ele sentia fortes
tonteiras. Victoria cuidou dele e aos poucos ele foi melhorando. Passaram-se
vários dias na rotina no quarto com aquela linda menina fazendo de tudo para lhe agradar. As conversas passaram a ser sobre temas corriqueiros e agradáveis. Não
demorou muito para que descobrisse que estava apaixonado por aquela bela jovem de olhos verdes, cabelos loiros e corpo esbelto.
Ele continuava
intrigado e se sentia angustiado por não se lembrar de quem era. Às vezes se
olhava em um espelho, que ficava guardado numa das gavetas do criado-mudo, imaginando
que talvez isso pudesse ajudar a se lembrar de si, mas era inútil. Era como se ele
olhasse para um estranho. Além disso, outra coisa que o angustiava era a
possibilidade de que o seu sumiço estivesse fazendo sua família sofrer. Será que
eu tenho família? Este incômodo pensamento era corriqueiro.
Entretanto, quando
Victoria estava ao seu lado, nada além de sua beleza e do brilho verde de seus
olhos lhe importavam. Ela parecia perceber isso, pois ele não sabia disfarçar os
sentimentos. A jovem parecia inclusive estar percebendo a falta memória, pois
passou a o perguntar muito mais sobre o seu passado, perguntava se ele queria
ligar para alguém da família, se havia alguém para lhe buscar. Victoria não
pareceu surpresa quando ele respondeu que não havia ninguém para quem quisesse
ligar. Esquivava-se das perguntas o melhor que podia e quando uma resposta era
inevitável, inventava algo. A situação foi piorando e ele, que naquela altura amava
Victoria mais que qualquer coisa no mundo, abriu o jogo com ela e contou a
verdade sobre a amnésia.
– Eu já
desconfiava, afinal, você já chamou a sua mãe de três nomes diferentes e seu
nome não poderia ser somente João, sem sobrenome. Essa foi a pior mentira que
me contou.
Ele riu. Riram
juntos. Aliás, ele sorria a cada instante ao lado dela. O fato de não
existir mais segredos entre os dois, o deixou aliviado. Esconder algo da
Victoria era como trair a mulher amada, pensava ele.
– Mas não se
preocupe. Vou te ajudar a se lembrar do teu passado. Venha comigo.
Depois de muito
tempo sob os cuidados de Victoria, ele já conseguia se levantar e pôde segui-la
até a sala. Ela se sentou e indicou um lugar no sofá para ele. Pegou um porta-retratos
que estava sobre a mesa de centro e lhe mostrou a foto.
– Essa é minha mãe.
Morreu muito jovem. – Victoria exibia uma expressão de dor e não tentou conter
as lágrimas que se precipitaram e foram pousar em seus lábios.
Levantou-se, abriu
uma gaveta da estante da sala de onde retirou alguns panos e os jogou para ele.
Havia uma máscara rasgada e um pouco queimada e uma bandeira com o símbolo que ele
não pôde reconhecer.
– Acho que isso era
seu. Talvez te ajude a se lembrar de alguma coisa.
– Infelizmente isso
aqui não ajuda em nada.
– Olhe para a foto
da minha mãe. Ela era jovem, estava num ônibus voltando para a casa, quando um
desgraçado jogou Coquetel Molotov. Os passageiros conseguiram fugir, mas minha
mãe que era cadeirante, não.
Ficou emocionado,
chorou com ela e falou:
– Sinto muito.
Ela se afastou, se
aproximou da porta que aparentemente levava para o exterior da casa, a abriu e
disse:
– Não, João, o
ninguém. Sou eu quem sente muito. O desgraçado que queimou minha mãe está agora
sentado no sofá da casa que era dela e agora vai queimar como ela queimou.
Victoria acendeu um
isqueiro e o jogou num chão previamente preparado para queimar, saiu de casa e ele
pôde ouvir o som do ferrolho quando a porta foi trancada. O fogo se alastrou rapidamente pela
residência e finalmente ele havia descoberto quem ele era: um homem morto.
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